A maturidade em Indústria 4.0 do setor de celulose e papel
Por Flavio Hirotaka Mine, especialista em Confiabilidade na CENIBRA
A maturidade em Indústria 4.0 é um fator decisivo para que as empresas possam realmente capturar os benefícios das tecnologias digitais e inteligentes. Ela reflete o grau de preparo, integração de sistemas e cultura organizacional necessários para implementar e sustentar soluções avançadas, como Internet das Coisas (IoT), Inteligência Artificial (IA), Big Data e automação industrial. Quanto maior a maturidade, maior a capacidade da empresa de transformar dados em valor, otimizar processos e responder de forma ágil às demandas do mercado.
Para avaliar a evolução da maturidade digital no setor, foi conduzida uma pesquisa setorial abrangente, com o objetivo de analisar o avanço das práticas e tecnologias entre os anos de 2017 e 2024. A primeira edição da pesquisa, realizada em 2017, foi apresentada no 51° Congresso Internacional de Celulose e Papel – ABTCP em 2018, trazendo um diagnóstico inicial sobre o estágio de transformação digital nas indústrias brasileiras do segmento.
Em 2024, uma nova rodada da pesquisa setorial foi realizada, ampliando o escopo e aprofundando a análise sobre os desafios e avanços do setor. Os resultados dessa atualização foram apresentados no 57° Congresso Internacional de Celulose e Papel – ABTCP em 2025, permitindo uma comparação direta entre os dois períodos e evidenciando tendências, conquistas e pontos críticos para o desenvolvimento sustentável da Indústria 4.0 no Brasil.
PESQUISA SETORIAL – ANO 2017
A pesquisa setorial realizada em 2017 foi conduzida por Alessandro Frias, então Coordenador de Infraestrutura de TI da OJI Papéis Especiais, em parceria com a UNICAMP e com o apoio da ABTCP. O estudo trouxe um panorama detalhado sobre o estágio de maturidade digital do setor de celulose e papel no Brasil, evidenciando uma realidade bastante heterogênea entre os diferentes tipos de empresas.
Os resultados mostraram que as fábricas de celulose estavam à frente em termos de digitalização, integração vertical e horizontal, além de apresentarem avanços significativos nas camadas superiores de automação e na integração entre tecnologia de automação (TA) e tecnologia da informação (TI). Por outro lado, as empresas de papel integrado ocupavam uma posição intermediária, com maturidade média em digitalização e integração. Já as empresas de papel não integrado demonstravam maior atraso, especialmente na convergência entre TA e TI e no engajamento organizacional para a transformação digital.
A integração entre automação e TI foi identificada como um dos principais indicadores de maturidade digital. Nas fábricas de celulose, observou-se uma tendência crescente de uso integrado e inteligente dessas tecnologias, enquanto nas empresas de papel integrado e não integrado essa convergência ainda era parcial ou pontual. O uso predominante de protocolos analógicos, como o 4–20 mA, reforçou a presença de um parque industrial com tecnologia envelhecida, dificultando a implementação de soluções digitais mais avançadas, como gêmeos digitais, manutenção preditiva e analytics em tempo real.
Outro desafio relevante apontado pela pesquisa foi a baixa disponibilidade de profissionais especializados em indústria 4.0. Mais de 60% dos respondentes indicaram a necessidade de formação específica, e apenas uma pequena parcela considerava que esses profissionais estavam disponíveis no mercado. A responsabilidade pela formação do profissional 4.0 foi vista como compartilhada entre governo, instituições de ensino e indústria, reforçando a importância de parcerias e programas de capacitação para suprir essa lacuna e preparar a força de trabalho para as demandas da transformação digital.
O quadro síntese a seguir demonstra como foi avaliada a maturidade do setor em 2017:

PESQUISA SETORIAL – ANO 2024
A pesquisa setorial em 2024 foi realizada pela Comissão Técnica de Transformação Digital da ABTCP liderada pela Joice Fujita.
A pesquisa setorial sobre maturidade digital no setor de celulose e papel foi conduzida entre agosto de 2023 e dezembro de 2024, com compilação dos dados até agosto de 2025. O projeto envolveu profissionais de diversas empresas do setor e foi validado pela ABTCP, garantindo representatividade e confidencialidade dos dados. O modelo de avaliação adotado foi o Acatech Industrie 4.0 Maturity Index, que considera quatro pilares (Sistemas de Informação, Cultura, Estrutura Organizacional e Recursos) e oito dimensões, permitindo uma análise abrangente do grau de transformação digital das empresas participantes.
O índice médio de maturidade digital do setor ficou em 4,6 (em uma escala de 1 a 6), indicando que a maioria das empresas já atingiu o estágio de transparência, com avanços em capacidade preditiva. As empresas integradas de celulose e papel apresentaram ligeira vantagem, com índice de 4,7, enquanto as empresas exclusivamente de celulose e de papel ficaram próximas, com 4,6 e 4,5 respectivamente. Os resultados mostram que o setor evoluiu significativamente desde 2017, com maior envolvimento da alta liderança, melhor governança de dados e expectativas de retorno sobre investimento mais realistas e aceleradas.

Os principais pontos fortes identificados foram o avanço em sistemas de informação e recursos digitais, além do aumento do patrocínio executivo para projetos de transformação digital. No entanto, persistem lacunas importantes, especialmente em cultura organizacional, colaboração dinâmica em redes de valor e comunicação interna sobre projetos 4.0. A fragmentação dos indicadores de desempenho e a ausência de KPIs corporativos dificultam a mensuração e a comprovação dos benefícios da transformação digital em escala.
A pesquisa destacou como principais desafios a convergência entre sistemas de automação (OT) e tecnologia da informação (IT), devido à presença de sistemas legados e isolados. A cultura organizacional e a resistência à mudança ainda limitam a adoção de novas tecnologias, enquanto a escassez de profissionais qualificados em indústria 4.0 se agravou, sendo apontada por mais de 75% dos participantes. O investimento elevado e o retorno incerto continuam sendo barreiras para a implementação de projetos digitais, e a cibersegurança, embora tenha avançado, ainda não está plenamente consolidada, especialmente na camada operacional. Por fim, a falta de uma estratégia clara e de planejamento de longo prazo impede que a transformação digital seja integrada ao planejamento estratégico das empresas.
A pesquisa evidencia que o setor de celulose e papel está em um estágio intermediário de maturidade digital, com avanços importantes, mas ainda enfrenta desafios estruturais para evoluir para níveis mais altos de predição e adaptabilidade. O apoio da liderança e a busca por resultados mais rápidos são sinais positivos, mas será fundamental investir em integração de sistemas, desenvolvimento de competências digitais, fortalecimento da cultura de inovação e institucionalização de indicadores corporativos para garantir a sustentabilidade e o sucesso da transformação digital no setor.
Apresentado também a evolução da maturidade entre alguns setores econômicos e a projeção pra 2030:


CENÁRIO PARA 2030
Até 2030, o setor de celulose e papel no Brasil deverá alcançar um patamar elevado de maturidade digital, consolidando a transição da transparência para a capacidade preditiva e, em empresas líderes, avançando para a adaptabilidade operacional. A integração entre sistemas de automação e tecnologia da informação será cada vez mais robusta, impulsionada pela adoção de arquiteturas digitais interoperáveis e pelo uso intensivo de inteligência artificial e análise de dados em tempo real. A cultura organizacional estará mais aberta à inovação, com programas contínuos de capacitação e comunicação estruturada, enquanto a governança de dados e indicadores corporativos permitirá mensurar e capturar valor de forma consistente.
A escassez de profissionais especializados ainda será um desafio, mas será mitigada por iniciativas setoriais de formação e parcerias com instituições de ensino. A cibersegurança se consolidará como disciplina operacional, acompanhando o aumento da conectividade industrial e a exigência de proteção de dados. Por fim, a agenda ESG e a descarbonização atuarão como motores para a digitalização, exigindo rastreabilidade, eficiência energética e integração de dados em toda a cadeia produtiva. Com esses avanços, o setor estará preparado para operar de forma mais inteligente, resiliente e sustentável, alinhado às melhores práticas globais da Indústria 4.0 e 5.0.













