A produtividade (e a educação) como rumos para o crescimento do Brasil
Por Celso Tacla, vice-presidente executivo da Valmet América Latina
O Brasil começa a envelhecer antes de resolver um de seus principais problemas estruturais: a baixa produtividade.
Vivemos hoje um dos maiores paradoxos da nossa história econômica. Precisamos aumentar urgentemente nossa capacidade de gerar valor justamente quando a expansão da força de trabalho começa a desaparecer.
A saída passa pela maior qualificação das pessoas. Mas é exatamente aqui que encontramos outro dos nossos grandes desafios.
“A mediocridade da educação caminha pari passu com a mediocridade da produtividade”, escreveu João Batista Oliveira, presidente do Instituto iDados, em artigo publicado no Valor Econômico em março deste ano. Para mim, essa frase resume com precisão um dos principais gargalos estruturais do país.
Em PIB por hora trabalhada, o Brasil produz cerca de US$ 20 por hora, enquanto países da OCDE superam US$ 60. Em outras palavras, nossa produtividade corresponde a apenas um terço, ou até um quarto, da observada nas economias mais desenvolvidas. O principal fator por trás dessa diferença é conhecido: a qualidade da aprendizagem.
Os alunos brasileiros passam praticamente o mesmo tempo na escola que estudantes de países desenvolvidos, mas aprendem significativamente menos. No PISA, o Brasil permanece entre 70 e 90 pontos abaixo da média da OCDE. Isso não representa apenas uma fragilidade educacional, mas uma limitação direta à competitividade, à inovação e ao crescimento econômico.
Durante décadas, o Brasil cresceu apoiado na expansão populacional e no aumento do acesso à educação. Esse ciclo terminou.
A transição demográfica avança rapidamente. A população envelhece e a expansão da força de trabalho desacelera. Em uma economia que envelhece, produtividade deixa de ser apenas desejável e passa a ser a única alternativa sustentável de crescimento.
Sem ganhos consistentes de capacitação e desenvolvimento das pessoas, o país entra em desaceleração estrutural.
Melhorar a qualidade da educação não é apenas uma agenda social. É uma agenda econômica e de competitividade nacional.
Convergir para os padrões médios da OCDE exigiria elevar as notas brasileiras no PISA em cerca de 70 pontos. Isso poderia elevar o potencial produtivo da sociedade brasileira entre 25% e 40%, permitindo que a mesma força de trabalho gere mais valor utilizando a mesma infraestrutura e os mesmos ativos produtivos.
Um estudo do IMDS transformou esses dados em valores concretos: com o mesmo nível educacional da juventude chilena, a renda gerada por essa mesma geração no Brasil seria 42% maior. Se tivesse o padrão educacional coreano, o aumento chegaria a 72%.
O Brasil não acompanhou a transformação acelerada da Coreia do Sul entre o fim dos anos 1970 e o início dos anos 1980. Décadas depois, assistimos à ascensão da China, que consolidou nos anos 1990 e 2000, um modelo agressivo de industrialização, educação técnica e competitividade global. E qual foi o ponto comum dessas trajetórias?
Coreia do Sul e China transformaram produtividade em prioridade nacional. Essa visão se traduziu em pilares recorrentes:
- educação com foco em aprendizagem real;
- valorização do esforço, disciplina e qualificação técnica;
- industrialização voltada à competitividade global;
- planejamento de longo prazo;
- investimentos pesados em infraestrutura;
- forte ambição de desenvolvimento;
- aumento contínuo da produtividade industrial e tecnológica.
Ambos os países compreenderam algo fundamental: crescimento sustentável não nasce apenas do consumo ou da expansão populacional, mas da capacidade de produzir mais valor por pessoa. E isso exige desenvolvimento das pessoas.
E não por coincidência, o que está na base de tudo? Uma educação digna e de qualidade.
Voltando ao Brasil, existe entre nós um segundo vetor igualmente preocupante: o envelhecimento populacional e a redução proporcional da população em idade de trabalhar. Este aumento da idade média da população e traz a perda gradual do bônus demográfico que sustentou parte do crescimento brasileiro nas últimas décadas.
Um estudo do Itaú Educação e Trabalho e da Fundação Arymax, elaborado pelo Instituto Veredas, aponta que, em 2040, cerca de um em cada três brasileiros estará fora da faixa etária economicamente ativa, hoje compreendida entre 15 e 64 anos. Nosso país já colheu praticamente todos os ganhos da expansão quantitativa da educação. Os próximos ciclos de crescimento dependerão quase exclusivamente da qualidade da aprendizagem.
Isso cria uma enorme pressão sobre a capacidade do país de gerar riqueza. Menos pessoas trabalhando precisarão sustentar uma população maior, mais envelhecida e com crescente demanda por saúde, cuidados e previdência.
Essa discussão ocorre justamente em um momento de profunda transformação global do trabalho, impulsionada pela digitalização, inteligência artificial, automação e transição ambiental.
O mundo inteiro discute como aumentar produtividade. Não podemos continuar discutindo como acomodar baixa produtividade.
Esse talvez seja um dos pontos mais delicados do debate nacional.
Criamos, ao longo do tempo, mecanismos de proteção social importantes e necessários. Mas muitas vezes medimos sucesso pelo número de pessoas dentro dos programas, e não pelo número de pessoas que conseguem sair deles por meio de qualificação, empregabilidade, autonomia e geração de renda.
A verdadeira inclusão social não é dependência permanente. É desenvolvimento humano sustentado pela dignidade do trabalho.
Existe ainda outro dado que ajuda a ilustrar a complexidade do cenário brasileiro: o país possui uma das maiores proporções de aposentadorias concedidas por condições especiais do mundo.
Hoje, aproximadamente 40% das aposentadorias brasileiras enquadram se nessa categoria. Na OCDE, o maior índice é o da Grécia, com cerca de 11%.
O desafio brasileiro, portanto, é estrutural: precisaremos produzir mais valor com menos pessoas economicamente ativas.
Isso exigirá uma combinação rara de fatores: melhor educação, maior qualificação técnica, modernização produtiva, transformação digital, eficiência operacional, inovação, liderança e uma nova mentalidade sobre crescimento, mérito e desenvolvimento humano.
O debate sobre produtividade não pode ser tratado apenas como uma discussão empresarial.
Ele definirá a capacidade futura do Brasil de crescer, competir, sustentar políticas sociais e gerar prosperidade em uma sociedade que envelhece rapidamente.
No longo prazo, a competitividade de uma nação será determinada pela sua capacidade de educar, desenvolver e inspirar pessoas.












