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As capacidades que todo líder deveria desenvolver para continuar relevante

Por Isis Borge, Diretora Executiva na Talenses e Sócia do Talenses Group

Quando falamos sobre desenvolvimento de liderança, é comum pensarmos em cursos, formações executivas, MBAs ou treinamentos corporativos. Tudo isso pode ser importante, mas tenho pensado cada vez mais que, diante da velocidade das transformações que estamos vivendo, o desenvolvimento de um líder não pode depender apenas de momentos formais de aprendizagem.

As empresas, as tecnologias, os modelos de trabalho e o contexto ao nosso redor mudam muito rapidamente. Por isso, mais do que tentar prever exatamente quais competências serão exigidas daqui a cinco ou dez anos, talvez faça mais sentido desenvolver capacidades que aumentem nossa possibilidade de adaptação.

Na lista abaixo, estão algumas delas que, na minha visão, deveriam estar no radar de qualquer profissional que queira crescer em posições de liderança.

COMUNICAÇÃO

Quanto mais avançamos na carreira, menos somos reconhecidos apenas pelo conhecimento técnico e mais somos avaliados pela nossa capacidade de mobilizar outras pessoas. E isso passa necessariamente pela comunicação.

Um líder precisa saber explicar uma estratégia, defender uma ideia, dar direcionamento, conduzir conversas difíceis, influenciar pares, apresentar resultados e adaptar sua linguagem dependendo de quem está do outro lado. Não basta ter uma boa ideia se você não consegue fazer com que outras pessoas a compreendam.

E comunicar bem não significa necessariamente falar muito ou ter facilidade para se apresentar em público. Significa conseguir organizar o pensamento, ser claro, ouvir, fazer boas perguntas e entender qual mensagem realmente precisa chegar ao outro.

Uma prática simples que recomendo é, antes de qualquer reunião importante, responder mentalmente a três perguntas: “Qual é a principal mensagem que quero transmitir?”; “O que eu gostaria que as pessoas entendessem?”; e “Qual ação ou decisão espero ao final dessa conversa?”.

Outra boa prática é treinar a síntese. Pegue um assunto complexo e tente explicá-lo em cinco minutos. Depois em dois. Depois em uma frase. Parece simples, mas é um exercício excelente, especialmente porque, quanto maior a senioridade de um profissional, maior tende a ser a necessidade de transformar complexidade em clareza.

LEITURA DE CENÁRIOS

Outra capacidade que considero cada vez mais importante é conseguir olhar para além da própria função e entender o contexto em que estamos inseridos. Isso envolve, naturalmente, acompanhar o que acontece fora da empresa: economia, geopolítica, tecnologia, regulação e comportamento. Focar em movimentos que possam afetar o negócio, nossas decisões e até os caminhos possíveis para a nossa própria carreira.

E é importante fazer a “leitura de cenários” também dentro da organização em que estamos. Isso quer dizer que quem ocupa uma posição de liderança precisa aprender a perceber movimentos que nem sempre aparecem no organograma. É importante entender quem realmente influencia determinadas decisões, quem precisa ser envolvido antes de uma proposta chegar à reunião formal, quais alianças existem dentro da empresa, quais temas encontram apoio naquele momento e quais ainda enfrentam resistência.

Também faz parte dessa leitura perceber quando é o momento de levar uma ideia adiante ou de recuar, buscar mais apoio e voltar ao assunto depois. Isso não significa entrar em jogos políticos ou agir de forma pouco transparente. Tem a ver com entender que organizações são formadas por pessoas, interesses, prioridades, relações de confiança e diferentes níveis de influência.

Às vezes, uma excelente ideia não avança porque foi apresentada no momento errado, para a pessoa errada ou sem que os principais envolvidos tivessem sido ouvidos anteriormente. Da mesma forma, bons profissionais podem se frustrar porque acreditam que ter razão ou apresentar dados será sempre suficiente para convencer uma organização. Nem sempre é.

Diante de uma decisão importante, vale fazer algumas perguntas. Tente refletir sobre quem efetivamente toma essa decisão, quem influencia essa pessoa, quem pode apoiar essa ideia, quem pode se sentir impactado por ela, quais conversas precisam acontecer antes da reunião formal e se este é realmente o melhor momento para iniciar a conversa.

Ao mesmo tempo, essa leitura precisa acontecer olhando também para fora da “sua bolha”. Uma prática que gosto é diversificar deliberadamente as informações que consumimos. Se você só acompanha conteúdos relacionados à sua profissão, comece a ler também sobre economia, negócios, tecnologia, política internacional, comportamento e temas que, à primeira vista, parecem mais distantes da sua rotina.

O objetivo não é se tornar especialista em tudo. É ampliar repertório para perceber sinais, conectar informações e fazer perguntas melhores. Leitura de cenários não significa prever o futuro, significa compreender melhor o ambiente no qual estamos tomando decisões. Assim, tomamos decisões mais conscientes.

IDIOMAS

Conhecer outros idiomas, além do nativo, é muito importante para quem quer ampliar possibilidades profissionais. O inglês, principalmente, ainda abre muitas portas. Permite participar de projetos internacionais, acessar conteúdos diretamente na fonte, conversar com profissionais de outros países, ampliar o networking e concorrer a posições que talvez nem chegassem até você sem essa habilidade.

O espanhol também é uma competência que, muitas vezes, subestimamos no Brasil. A proximidade entre os idiomas pode passar a falsa impressão de que conseguimos nos virar apenas com o português. Mas existe uma diferença enorme entre entender uma conversa e ter segurança para negociar, apresentar um projeto, construir relacionamento ou conduzir uma reunião.

E talvez nunca tenha sido tão fácil aprender um idioma. As escolas tradicionais continuam existindo e podem funcionar muito bem, mas hoje temos aplicativos, plataformas online, professores que atendem remotamente, podcasts, vídeos no YouTube, audiobooks e ferramentas de Inteligência Artificial que permitem inclusive praticar conversação.

Não é necessário começar com várias horas de aula por semana. Comece com quinze ou vinte minutos por dia. Leia uma notícia em inglês, escute um podcast no caminho para o trabalho, assista a um vídeo sem legenda ou peça para uma ferramenta de IA conversar com você e corrigir seus erros.

O importante é criar exposição frequente ao idioma e fazer com que ele não seja praticado apenas na aula formal. É fundamental que ele entre na sua vida. Em muitos casos, a constância de pequenos contatos ao longo da semana pode fazer mais diferença do que estudar algumas horas seguidas e depois passar vários dias sem nenhum contato com o idioma.

FLUÊNCIA DIGITAL E INTELIGÊNCIA

Fluência digital não significa que todo executivo precise saber programar. Significa conseguir compreender minimamente as tecnologias que estão mudando o trabalho e a forma de trabalhar. Envolve testar ferramentas e desenvolver senso crítico sobre quando utilizá-las.

A Inteligência Artificial é, provavelmente, o exemplo mais evidente dessa necessidade hoje. Uma pesquisa conduzida pelo Talenses Group em junho de 2026 mostrou que 82% dos líderes participantes já utilizam ferramentas de IA pelo menos uma vez ao dia, e 36% deles usam agentes de IA para executar tarefas operacionais.

Ou seja, a transformação já começou. Ao mesmo tempo, a maioria das organizações ainda está aprendendo como estruturá-la. Nas empresas em que trabalham 60% dos líderes questionados, ainda não existem guias, políticas ou diretrizes para uso responsável da Inteligência Artificial.

Por isso, fluência em IA não deveria significar apenas saber escrever um bom prompt. Tem a ver com entender o que pode ser delegado para a tecnologia, o que precisa ser revisado, onde existem riscos e quais atividades continuam exigindo julgamento humano. A responsabilidade pelo uso correto da IA é de toda a empresa, não apenas do CIO e do departamento de TI.

Também significa começar a desenvolver a capacidade de trabalhar em uma realidade na qual teremos cada vez mais pessoas e agentes de inteligência artificial participando das mesmas atividades. Para as lideranças, isso exigirá discernimento para decidir onde a tecnologia aumenta a capacidade do time e onde a presença humana continua sendo essencial.

E, novamente, a melhor maneira de aprender é usando. Escolha uma atividade da sua rotina e experimente fazê-la com o apoio da IA. Peça ajuda para estruturar uma análise, organizar informações, resumir um documento, preparar perguntas para uma reunião ou explorar diferentes possibilidades para um problema.

Depois compare o resultado com aquilo que você faria sozinho. Questione, revise, identifique erros e perceba também onde a tecnologia trouxe ganhos reais. A ideia não é usar inteligência artificial para tudo. É desenvolver capacidade suficiente para saber quando, usar e por que usar ou não.

LIFELONG LEARNING

Por fim, existe uma capacidade que talvez seja a base de todas as anteriores: continuar aprendendo. Nesse sentido, gosto muito do conceito de “lifelong learning”, que na tradução para o português significa “aprendizagem ao longo da vida”. Uma definição que traduz bem uma importante mudança na nossa relação com a carreira.

Durante muito tempo, a lógica era relativamente simples. Estudávamos, escolhíamos uma profissão, aprendíamos uma especialidade e utilizávamos aquele conhecimento durante boa parte da vida profissional. Hoje, isso dificilmente será suficiente.

Provavelmente teremos que reaprender partes da nossa própria profissão várias vezes ao longo da carreira. Algumas competências ganharão importância, outras perderão espaço e ferramentas que hoje são novidade rapidamente passarão a fazer parte da rotina.

Aprender continuamente, porém, não significa necessariamente fazer cursos o tempo inteiro. Podemos aprender lendo um livro, conversando com alguém de outra área, ouvindo um podcast, participando de um evento ou acompanhando reflexões de pessoas interessantes. É possível testar uma ferramenta nova, pedir feedback ou, simplesmente, ter curiosidade suficiente para reconhecer que existe algo que ainda não sabemos.

Uma prática que gosto é transformar desenvolvimento em pequenos projetos. Em vez de dizer “preciso melhorar meu inglês”, defina que durante os próximos três meses você ouvirá um podcast em inglês três vezes por semana. Em vez de dizer “preciso entender Inteligência Artificial”, escolha uma ferramenta e use durante um mês em atividades reais do trabalho.

Não sabemos exatamente como será o trabalho daqui a dez anos. Algumas tecnologias que hoje parecem revolucionárias provavelmente serão básicas. Outras que ainda nem conhecemos podem transformar completamente a forma como trabalhamos. Por isso, talvez nossa maior proteção profissional não seja dominar uma ferramenta específica, mas desenvolver capacidades que nos permitam continuar aprendendo quando as ferramentas, os negócios e o contexto mudarem.

Se você focar em “passos de evolução” em vez de “uma grande revolução” terá mais chance de transformar intenção em compromissos e ações que realmente façam parte da sua rotina. Algo muito importante, tendo em vista que a capacidade de aprender talvez seja o maior diferencial de um profissional de destaque nos próximos anos.

No fim, a carreira não é construída apenas pelo conhecimento que acumulamos. Ela também é construída pela nossa capacidade de aprender aquilo que ainda não sabemos e reciclar o conhecimento sobre o que acreditamos dominar.

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