Brasil expõe dependência da indústria de papel tissue dos EUA
Por Jino John, especialista em inteligência de mercado com mais de 13 anos de experiência no setor global de celulose e papel
Treze anos acompanhando cadeias globais de suprimentos e este ainda surpreende muita gente. Recentemente, um CFO da Carolina do Norte mencionou, de forma casual, que 40% da fibra usada por sua empresa vem do Brasil. Sem plano de contingência, sem alternativas locais. Qualquer interrupção no fornecimento? Problema grave.
Três dias depois, a Forest and Paper Association correu para apresentar uma oposição emergencial. Uma reação previsível.
As tarifas sobre a celulose podem parecer um detalhe técnico, mas afetam diretamente todos os consumidores norte-americanos.
BRASIL DOMINA O PAPEL HIGIÊNICO NORTE-AMERICANO (A MAIORIA NEM PERCEBE)
Sabe aquele papel higiênico macio encontrado nos supermercados dos EUA? Essencialmente árvores brasileiras, processadas e enviadas para o mercado norte-americano. As fibras de eucalipto garantem volume e absorção; as de pinus, resistência. Produzir apenas com pinus resulta em problemas óbvios de qualidade.
Nos EUA, a produção de eucalipto é mínima. Existem algumas fazendas na Califórnia e operações no Havaí, e nada além disso. Como resumiu um operador de fábrica no Alabama: “Temos dificuldade em cultivar grama decente aqui – competir com fazendas de árvores brasileiras não é realista.”
O Brasil não conquistou essa dominância por acaso. Foram três décadas de investimentos bilionários, ciclos de cultivo de apenas seis anos, clima favorável e redes logísticas altamente eficientes. Um modelo de silvicultura industrial em larga escala, superior ao praticado nos EUA.
DEPENDÊNCIA COMPLETA DO FORNECIMENTO BRASILEIRO
Atualmente, 85% do eucalipto usado nos EUA vem do Brasil. Não é uma maioria simples – são 85%.
Tentativas de diversificação fracassaram. A Indonésia fornece qualidade irregular. O Chile tem bom material, mas não possui capacidade de volume. Outros fornecedores são caros demais ou pouco confiáveis.
Não é descuido das empresas norte-americanas. Essas cadeias levaram décadas para se estruturar: exigências de qualidade, contratos de transporte, certificações de clientes. Trocar de fornecedor não é como mudar o provedor de internet.
O impacto financeiro é enorme. Uma fábrica típica de tissue processa 200 mil toneladas por ano, sendo 80 mil de eucalipto. Uma tarifa de 10% representa US$ 4 a 5 milhões a mais em custos anuais por unidade.
Multiplique isso pelos grandes produtores – os números se tornam astronômicos.
O verdadeiro problema? Não existem alternativas viáveis. Planos de contingência basicamente significam produzir produtos inferiores ou buscar fornecedores que não existem na escala necessária.
A ABORDAGEM EQUIVOCADA DE WASHINGTON
A justificativa oficial foca em preocupações com o desmatamento. Proteção ambiental, preservação da floresta tropical – questões legítimas que merecem atenção.
A ironia é perturbadora: a maioria das operações brasileiras se reformou justamente porque empresas norte-americanas exigiram. Certificações florestais, monitoramento de carbono, proteção da biodiversidade – todas atendidas porque perder o mercado dos EUA seria catastrófico.
Anos de análise dos relatórios de sustentabilidade dessas companhias revelam operações muitas vezes mais limpas que instalações norte-americanas – era necessário para manter os negócios com os EUA.
Agora, impor tarifas mesmo assim? A lógica é questionável.
CONCORRENTES LUCRAM COM A AUTOSSABOTAGEM NORTE-AMERICANA
Enquanto fabricantes dos EUA absorvem custos mais altos, empresas canadenses continuam com cadeias de suprimento estáveis. Produtores mexicanos que atendem seus próprios mercados evitam tarifas norte-americanas.
Na prática, os EUA estão prejudicando a si próprios, enquanto concorrentes observam satisfeitos.
As companhias norte-americanas de tissue são líderes em tecnologia, controle de qualidade e proximidade com o consumidor. Mas não competem no custo da matéria-prima – o cultivo de eucalipto em escala comercial nunca foi viável no clima norte-americano. Nem era, nem será.
As realidades de mercado não se ajustam a preferências políticas.
CONSEQUÊNCIAS PREVISÍVEIS
As empresas já trabalham com cenários pessimistas. Reformulação de produtos leva meses. Encontrar novos fornecedores — se existirem — pode levar anos. Há testes de qualidade, acordos logísticos e aprovação de clientes em jogo.
Isso não é como trocar o fornecedor de café do escritório.
Uma política eficaz envolveria acordos específicos de sustentabilidade. Atender às preocupações ambientais sem destruir cadeias de suprimento que levaram trinta anos para serem construídas. Os produtores brasileiros já demonstraram disposição em atender a qualquer padrão, desde que o acesso ao mercado dependa disso.
Isso exige que autoridades em Washington distingam entre políticas eficazes e aquelas que apenas rendem manchetes positivas.
A REALIDADE DA INDÚSTRIA
As empresas vão se adaptar. Sobreviveram à crise financeira de 2008, às rupturas da COVID, a inúmeros outros desafios.
Mas sobrevivência tem níveis: algumas fortalecem, outras apenas fragilizam. Forçar fabricantes a usar insumos piores ou pagar mais caro por produtos iguais não aumenta competitividade, apenas gera custos desnecessários.
Um executivo resumiu bem: “Nós vamos nos adaptar a qualquer decisão ruim que venha de Washington. Sempre foi assim. Algumas decisões ajudam a indústria norte-americana a competir globalmente; outras nos prejudicam sem justificativa”.
A dependência do eucalipto não é incompetência nem falta de patriotismo. É resultado de eficiência na busca por qualidade e competitividade global.
Alguém em Washington precisa entender isso antes que os danos sejam irreversíveis.
Enquanto isso, talvez valha a pena o consumidor norte-americano estocar papel tissue de qualidade.












