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Entre o esquecimento e o viés: pequenas histórias, grandes aprendizados

Por Celso Tacla, vice-presidente executivo da Valmet América Latina e membro do comitê executivo global da Valmet

Às vezes, o que parece apenas uma distração revela algo mais profundo: a forma como nossa mente cria certezas antes dos fatos. Recentemente, vivi três pequenas situações que me fizeram refletir sobre isso e sobre como, tantas vezes, a desconfiança chega antes da razão. 

O COMPUTADOR NO VOO

Durante um voo da Air China, ouvi um barulho seco, como se algo tivesse caído. Acordei assustado, olhei ao redor e não vi nada. Revirei os espaços da poltrona sem sucesso. Quando percebi que o computador não estava na mochila, imediatamente imaginei o pior: “Será que alguém pegou? Talvez no lounge quando deixei a mochila sozinha por alguns momentos…”

Chamei uma comissária, que acionou outro comissário, este especialista naquele modelo de avião e naquele tipo de poltrona com frestas estreitas. Ele desmontou parte da poltrona e, após muita busca, encontrou o computador escondido em um canto quase inacessível. Respirei aliviado – e até envergonhado. Em poucos segundos, eu já havia concluído o pior. 

OS ÓCULOS ESQUECIDOS

Algumas horas após voltar de uma clínica de recuperação esportiva, percebi que havia deixado lá meus óculos escuros novos, que usava pela primeira vez! A capa era preta e eu tinha certeza de tê-la deixado sobre um armário da mesma cor. Era sábado, a clínica estava fechada e pensei: “Na segunda, não estarão mais lá.” Ainda completei mentalmente: “Se fosse na Finlândia, estariam no mesmo lugar.”

Voltei na segunda-feira, logo na abertura e lá estavam eles: guardados, intactos e à minha espera. Me senti constrangido com a certeza antecipada de que não os recuperaria. 

O TELEFONE NA CLÍNICA

Durante um exame de vista, deixei o telefone carregando enquanto aguardava o resultado. Na correria da saída, já atrasado para uma reunião, fui embora sem pegá-lo. Quando notei, voltei imediatamente. Procurei, perguntei na recepção e ninguém havia visto. Pedi que ligassem, e o toque soou no meu relógio. Busquei-o por toda a clínica agora com duas certezas: a de que estava ali e já convencido de que estava com alguém. Mas apenas pouco depois encontrei o aparelho exatamente onde o havia deixado: na estação de carregamento. Expliquei, pedi desculpas e saí rindo de mim mesmo. 

O QUE HÁ POR TRÁS DESSAS DISTRAÇÕES

Três histórias simples, um padrão claro: antes de verificar, eu já tinha certeza de que algo ruim havia acontecido. Esse é o viés da negatividade, a tendência de dar mais peso ao que pode dar errado. E talvez também o viés da confirmação: acreditar que “as pessoas não devolvem o que acham” e enxergar o mundo por essa lente. Mas, em todos os casos, a realidade me provou o contrário. 

A LIÇÃO

Esses episódios me lembraram que a confiança é um exercício diário. O mundo, na maior parte do tempo, é mais gentil do que nossa mente apressada nos faz acreditar. Talvez a maturidade esteja em olhar primeiro com curiosidade, não com desconfiança. Em aceitar que a memória pode falhar – e que a bondade, felizmente, nem sempre. 

E VOCÊ?

  • Em que situações a sua mente cria certezas antes dos fatos?
  • Você tende a confiar primeiro ou desconfiar primeiro? Por quê? 
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Celso Tacla

Celso Tacla é vice-presidente executivo da Valmet América Latina e membro do comitê executivo global da Valmet. Sua carreira profissional, iniciada em fábricas de celulose e papel, seguiu em diversas empresas de bens de capital voltadas ao setor de celulose, papel e energia, como a sueca Götaverken Energy, a norueguesa Kvaerner Pulping e as finlandesas Metso e Valmet. Em sua trajetória, atuou na liderança de processos para implementação de grandes projetos de produção de celulose, papel e energia para clientes no Brasil e em vários outros países da América do Sul.
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