Entre o passado, o futuro e o agora: o privilégio da atenção
Por Celso Tacla, vice-presidente executivo da Valmet América Latina
Paradoxalmente, vivemos na era da conexão permanente e da presença escassa. Nunca tivemos tantas ferramentas disputando nossa atenção e, talvez por isso mesmo, nunca tenha sido tão difícil prestar atenção.
Passamos boa parte dos dias divididos entre lembranças do passado, preocupações com o futuro e uma infinidade de distrações que disputam nossa atenção. Estamos em uma reunião pensando na próxima. Estamos em casa pensando no trabalho. Estamos com as pessoas que amamos enquanto verificamos mensagens no celular.
O resultado é que frequentemente vivemos no automático. E o mais preocupante é que esse piloto automático não afeta apenas nossa produtividade ou nossos relacionamentos. Em algumas situações, suas consequências podem ser muito mais profundas.
Recentemente, um trágico acidente envolvendo uma jovem durante uma atividade de rope jump chamou a atenção de todo o país. O que mais me impressionou não foi a altura da queda nem as imagens do ocorrido. Foi uma pergunta simples que aparentemente não foi feita:
“Ela está presa à corda?”
O que me impressiona nesse episódio é que não estamos falando de uma decisão complexa ou de um conhecimento técnico sofisticado. Estamos falando de alguns segundos de atenção.
Os acidentes mais graves raramente acontecem porque ninguém sabia o que fazer. Na maioria das vezes, os procedimentos existem, os treinamentos foram realizados e as responsabilidades estão definidas. O problema surge quando deixamos de prestar atenção, quando a experiência se transforma em excesso de confiança e a rotina substitui a observação.
Mas a reflexão vai além desse episódio.
Recentemente conversei com um amigo sobre seu pai, um profissional que conheci e sempre associei à energia, lucidez e capacidade de realização. Ele me contou que, embora esteja fisicamente bem, o Alzheimer avançou a ponto de exigir que carregue consigo uma identificação para conseguir retornar para casa caso saia sozinho.
A conversa me fez refletir sobre quantas vezes vivemos como se tivéssemos tempo ilimitado. Quantas pessoas somente após uma doença, uma perda importante ou uma mudança inesperada passam a rever prioridades e dedicar mais atenção àquilo que realmente importa?
A pergunta inevitável é simples: por que esperar?
Por que aguardamos que a vida nos imponha mudanças que poderíamos escolher voluntariamente hoje?
Talvez porque tenhamos dificuldade em aceitar uma das verdades mais fundamentais da existência: a sua transitoriedade.
A vida está em permanente transformação. Empresas mudam, mercados evoluem, relacionamentos se transformam e nossa própria saúde segue seu curso ao longo do tempo. Nada é verdadeiramente estático.
Quantos profissionais competentes descobriram, de um dia para o outro, que circunstâncias fora de seu controle alterariam completamente seus planos? Quantas organizações admiradas desapareceram apesar do empenho de pessoas honestas e comprometidas? E quantas surgiram quase do nada simplesmente porque enxergaram antes dos demais as mudanças que estavam por vir?
Nem tudo está sob nosso controle. Reconhecer isso não é pessimismo, é lucidez.
A consciência da transitoriedade não deveria nos levar ao medo, mas a viver com mais presença. Ela nos lembra que o futuro importa, mas não nos pertence. Que o passado ensina, mas não pode ser alterado. E que o único tempo em que podemos agir, amar, aprender e viver é o presente.
Isso não significa ignorar o futuro.
Especialmente para quem lidera pessoas ou organizações, planejar continua sendo essencial. Estratégia, visão de longo prazo e preparação para os desafios que virão fazem parte da responsabilidade de qualquer líder.
Mas existe uma diferença importante entre planejar e preocupar-se excessivamente.
Quando dedicamos atenção excessiva ao futuro, a preocupação tende a se transformar em ansiedade. Quando permanecemos presos ao passado por tempo demais, a reflexão corre o risco de dar lugar à melancolia.
O equilíbrio talvez esteja em dedicar a maior parte da nossa energia ao presente, reservando uma parcela menor para construir o futuro e outra para aprender com o passado.
Não sei se existe uma fórmula ideal, mas gosto de pensar em algo como 60% a 70% da atenção no presente, 20% a 25% na construção consciente do futuro e apenas uma pequena parcela na reflexão sobre o passado. Não se trata dos números em si, mas do princípio do equilíbrio: aprender com a experiência, planejar os próximos passos e, acima de tudo, viver plenamente o presente.
Existe ainda outra reflexão que me acompanha.
Quantas vezes, ao longo de um único dia, colocamos nossas vidas nas mãos de outras pessoas?
Provavelmente centenas. Talvez milhares.
Confiamos no piloto do avião, no médico, no motorista que cruza conosco na estrada, no operador que executa um procedimento crítico, no engenheiro que projetou uma ponte ou um edifício.
A vida em sociedade é sustentada por uma extraordinária rede de confiança.
Mas confiar não significa abdicar da atenção. Significa compreender que, embora não possamos controlar tudo, podemos estar presentes, observar melhor, verificar quando necessário e evitar que a familiaridade nos torne indiferentes.
Com o passar dos anos, passei a enxergar essa atitude não como uma obrigação, mas como um privilégio. Estar atento é uma forma de participar conscientemente da própria vida. É perceber aquilo que normalmente passaria despercebido: uma oportunidade, um risco, uma conversa importante, um gesto de carinho ou um momento de felicidade simples.
Talvez viver plenamente seja justamente isso: não atravessar os dias apenas olhando para eles, mas realmente enxergando-os. Afinal, a qualidade da nossa vida depende, em grande medida, da qualidade da nossa atenção.
No final, a vida não é composta pelos planos que fazemos para o futuro nem pelas histórias que contamos sobre o passado. Ela é construída nos momentos que efetivamente vivemos.
E esses momentos acontecem aqui, agora.
Curiosamente, investimos grande parte do nosso tempo tentando controlar aquilo que não controlamos – o futuro – e relativamente pouco tempo observando aquilo sobre o qual efetivamente temos influência: nossas escolhas no presente.
Entre o passado que nos ensina, o futuro que nos desafia e o agora que nos pertence, talvez o verdadeiro privilégio não seja o tempo que temos, mas a atenção que escolhemos dedicar a ele.












