
As tensões no Oriente Médio voltaram ao centro das atenções do comércio global e já produzem efeitos concretos sobre cadeias intensivas em logística, como a de celulose. Em um mercado fortemente dependente de rotas marítimas de longa distância, qualquer disrupção em corredores estratégicos se traduz rapidamente em custos adicionais, prazos mais longos e maior volatilidade operacional.
De acordo com o economista Rafael Barišauskas, esse movimento já pode ser observado na reorganização das rotas e no encarecimento das operações. “Os conflitos no Oriente Médio estão interrompendo corredores marítimos importantes, aumentando os tempos de trânsito e a incerteza”, afirma. Na prática, isso implica trajetos mais longos, maior custo de seguros e menor disponibilidade de embarcações, fatores que reduzem a eficiência logística e elevam o custo de entrega da celulose aos principais mercados consumidores.
O impacto não se limita à operação marítima. As tarifas de frete já mostram sinais de pressão, sobretudo nas rotas para a Ásia, principal destino da produção global. “As tarifas de frete já apresentam uma pressão de alta”, acrescenta. Mesmo quando há alguma acomodação nas taxas spot, a instabilidade permanece elevada, levando produtores a incorporar prêmios adicionais de risco logístico nos contratos de fornecimento.
A equação se torna ainda mais complexa com a influência dos preços do petróleo, variável-chave para o transporte global. “Os preços do petróleo afetam diretamente os custos do combustível marítimo, as tarifas de frete e o transporte interno”, explica. Além do impacto direto, há efeitos indiretos ao longo de toda a cadeia produtiva, encarecendo insumos como energia, químicos e operações florestais, o que pressiona margens em um ambiente já desafiador.
Apesar desse aumento de custos, o repasse para os preços internacionais da celulose ainda encontra limitações. “Até o momento, o impacto nos preços da celulose tem sido moderado, e não estrutural”, observa. Segundo ele, a fraqueza da demanda global, com destaque para a China, tem impedido que produtores consigam transferir integralmente esses custos ao mercado.
A dinâmica chinesa, em particular, segue como fator determinante para o equilíbrio do setor. “A demanda na China permanece sensível ao preço, o que limita o repasse de custos”, afirma. Nesse contexto, produtores com estruturas mais eficientes ou com vantagem geográfica em relação aos mercados asiáticos tendem a enfrentar menos pressão, enquanto players com custos mais elevados veem suas margens comprimidas.
Para o curto prazo, o cenário permanece marcado por incerteza e volatilidade, impulsionadas tanto pelo ambiente geopolítico quanto pelos mercados de energia. “No curto prazo, a volatilidade deve persistir”, aponta. Já em um horizonte de médio prazo, a expectativa é de gradual normalização logística combinada a uma recuperação da demanda, o que pode abrir espaço para melhora no poder de precificação, ainda que a disciplina de custos siga como elemento central para a competitividade do setor.












