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Indústria sob ataque: a urgência da cibersegurança industrial

Por Flavio Hirotaka Mine, especialista em Confiabilidade na CENIBRA

O ano de 2025 marca um ponto crítico para a segurança industrial. Sistemas OT que controlam linhas de produção, redes elétricas e operações logísticas estão sendo visados como nunca. A combinação explosiva de ransomware, roubo de credenciais, falhas na cadeia de fornecimento e vulnerabilidades em equipamentos legados coloca em risco não apenas dados, mas vidas humanas, ativos físicos e a reputação de empresas. A diferença entre uma operação resiliente e uma catástrofe operacional está na capacidade de prevenir, detectar e reagir rapidamente.

A digitalização industrial trouxe benefícios inegáveis como maior eficiência, controle em tempo real, manutenção preditiva, predições e integração de cadeias de produção globais. No entanto, ao conectar sistemas antes isolados a redes corporativas e à nuvem, também se abriu a porta para invasores.

Hoje, a linha que separa TI (Tecnologia da Informação) e TO (Tecnologia Operacional) é tênue. Com a convergência OT/IT, vulnerabilidades que antes ficavam restritas a computadores de escritório ou de automação antes isolados agora podem comprometer a operação de grandes equipamentos e processos como caldeiras, turbo geradores, linhas de montagem ou sistemas de transporte.

Em um cenário em que uma única linha de código maliciosa pode parar uma fábrica inteira, a cibersegurança industrial deixou de ser apenas um requisito técnico, é um imperativo estratégico.

ATAQUES CONTRA INFRAESTRUTURA INDUSTRIAL CRESCERAM CADA VEZ MAIS

  • 2020 – 2021: crescimento de ransomware clássico, aproveitando o momento da pandemia e da quantidade de pessoas e sistemas conectados.
  • 2022: primeiras ondas de ataques deliberados a sistemas OT, explorando vulnerabilidades conhecidas e falta de segmentação.
  • 2023–2024: aumento de campanhas mistas (OT+IT), com destaque para criptografia e vazamento.
  • 2025: escalada sem precedentes — ataques sem malware (fileless), exploração de IA generativa para phishing avançado e ataques coordenados a cadeias de fornecimento.

NÚMEROS QUE ASSUSTAM. UM COMPARATIVO ENTRE O 1º SEMESTRE 2024 E 1° SEMESTRE 2025

  • +46% no volume de ataques de ransomware contra ambientes industriais.
  • 472 tentativas de ransomware apenas no 1° quadrimestre/2025 (40% de todo o volume de 2024).
  • 000% de aumento em infostealers como o W32.Worm.Ramnit, especializado em roubo de credenciais OT.
  • 826 ameaças via USB detectadas no 1° quadrimestre/2025, incluindo 124 variantes inéditas.
  • 79% dos incidentes de 2025 não envolvem malware tradicional — são ataques fileless, difíceis de detectar com antivírus convencionais.
  • IA generativa usada por adversários para criar campanhas de engenharia social personalizadas e altamente convincentes.

VETORES DE ATAQUE MAIS EXPLORADOS

  • Convergência OT/IT: expansão da superfície de ataque.
  • Falta de visibilidade OT: sistemas e ativos sem inventário e monitoramento.
  • IoT/IIoT e equipamentos legados: vulnerabilidades não corrigidas.
  • Cadeia de fornecimento: softwares e hardwares comprometidos no fornecedor impactando múltiplos clientes.
  • Erro humano: configurações inseguras e ausência de treinamento.

CASOS REAIS QUE ACENDERAM O ALERTA

  • Ataque ao Colonial Pipeline (2021): paralisou o maior oleoduto dos EUA por ransomware, afetando 45% do abastecimento de combustível da Costa Leste.
  • Clorox (2023): paralisação da produção, causado por um ataque com ransomware, levando à escassez de suprimentos, com custos de recuperação superiores a US$ 50 milhões.
  • Divisão automotiva da ThyssenKrupp (2024): um ataque fileless interrompeu a produção por 4 dias, gerando perdas superiores a US$ 10 milhões.
  • Marks & Spencer (2025): sofreu um ataque de ransomware que impactou os pedidos online por semanas e causou prejuízo estimado de US$ 350 milhões, com a retomada completa dos serviços ocorrendo apenas 4 meses após o ataque.

Esses incidentes mostram que a ameaça não é distante ou hipotética. Ela já está afetando operações críticas em diversos setores e regiões do mundo, causando prejuízos milionários, interrupções prolongadas e danos à reputação das empresas.

Diante desse cenário, torna-se indispensável adotar uma abordagem estruturada e alinhada às melhores práticas internacionais para prevenir, detectar e responder a incidentes. É nesse contexto que entra o roadmap para elevar a Cibersegurança Industrial, baseado na norma ISA/IEC 62443, que orienta organizações a fortalecerem sua resiliência cibernética de forma contínua e integrada.

ROADMAP PARA ELEVAR A CIBERSEGURANÇA INDUSTRIAL (NORMA ISA/IEC 62.443)

1 – Governança e gestão de risco

  • ISA/IEC 62443-2-1: estabelecer e manter um Cybersecurity Management System (CSMS) integrado à gestão de riscos operacionais e de segurança física.
  • Integrar riscos cibernéticos à matriz de riscos operacionais e avaliar a criticidade de cada ativo OT.
  • Assegurar compromisso da alta liderança por meio de políticas formais, patrocínio executivo e alocação de recursos para segurança.

2 – Visibilidade e monitoramento

  • ISA/IEC 62443-3-3: implementar inventário automatizado e atualizado de todos os ativos de IACS (Industrial Automation and Control Systems).
  • Implantar monitoramento contínuo e passivo para detecção de anomalias, respeitando a disponibilidade e integridade do processo industrial.
  • Definir níveis de segurança (SL) para cada zona e conduto monitorado.

3 – Segmentação e controle de acesso

  • ISA/IEC 62443-3-2: criar zonas e condutos para segmentar redes IT e OT, utilizando firewalls industriais e dispositivos de controle de fronteira.
  • Aplicar microsegmentação para isolar sistemas críticos e evitar movimentação lateral.
  • Adotar o princípio de menor privilégio e autenticação forte para todos os acessos, com base em funções e necessidades operacionais.

4 – Resposta a incidentes

  • ISA/IEC 62443-2-1: desenvolver e manter um plano de resposta a incidentes para OT, com playbooks específicos por tipo de ataque.
  • Criar ou terceirizar um OT-SOC especializado em monitoramento e resposta em tempo real.
  • Realizar exercícios e testes periódicos de recuperação e continuidade de operações.

5 – Proteção de identidades

  • ISA/IEC 62443-3-3 SR 1.1 a 1.4: utilizar autenticação multifator (MFA) para acessos remotos e críticos.
  • Implementar gerenciadores de credenciais seguras (vaults) para contas privilegiadas, com rotação periódica de senhas.
  • Controlar e registrar todas as sessões administrativas para fins de auditoria.

6 – Gestão de patches e hardening

  • ISA/IEC 62443-3-3 SR 6.2: criar um processo formal de avaliação e aplicação de patches, com priorização baseada em risco e impacto.
  • ISA/IEC 62443-4-2: aplicar hardening de dispositivos e desativar serviços não utilizados.
  • Implementar controles compensatórios quando patching não for viável, como segmentação extra ou listas de controle de acesso restritivas.

7 – Segurança na cadeia de fornecimento

  • ISA/IEC 62443-2-4: incluir requisitos de segurança cibernética em contratos com fornecedores, incluindo auditorias e conformidade.
  • Validar e testar atualizações e componentes de terceiros antes da implantação, garantindo integridade e autenticidade.
  • Estabelecer processos de verificação de integridade de software e firmware

8 – Cultura e treinamento

  • ISA/IEC 62443-2-1: desenvolver um programa de treinamento contínuo em cibersegurança para operadores, engenheiros e equipes de manutenção.
  • Realizar exercícios com executivos e gestores para testar tomada de decisão sob ataque.
  • Criar campanhas de conscientização específicas para riscos de engenharia social e phishing no contexto industrial.

A consolidação da cultura de segurança é o elo que conecta todos os demais elementos do roadmap. Sem pessoas capacitadas, treinadas e conscientes, até as melhores tecnologias e processos perdem força. A cultura organizacional voltada para a resiliência cibernética garante que as medidas de governança, segmentação, monitoramento e resposta sejam executadas de forma coerente e contínua, reduzindo a probabilidade de falhas humanas e aumentando a eficácia da defesa.

A aplicação estruturada do roadmap alinhado à norma ISA/IEC 62443 integrando governança, visibilidade, segmentação, resposta a incidentes, proteção de identidades, gestão de patches, segurança na cadeia de fornecimento e, principalmente, cultura e treinamento oferece às organizações um caminho sólido para elevar sua cibersegurança.

Na prática, a verdadeira barreira contra ataques não é um único firewall ou software, mas a soma de processos robustos, tecnologias adequadas e pessoas preparadas para agir com rapidez e precisão. É essa tríade que transforma a indústria de um alvo vulnerável para um ambiente resiliente, seguro e pronto para enfrentar os desafios do presente e do futuro.

Como sua empresa tem se preparado para esta ameaça?

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Flávio Hirotaka Mine

Flávio Hirotaka Mine possui mais de 24 anos de experiência no setor industrial, sendo reconhecido por sua busca incansável pela inovação e excelência. Sua trajetória combina uma sólida expertise técnica em manutenção, uma visão estratégica apurada e um compromisso genuíno com a geração de valor sustentável.
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