Liderar é influenciar – e aprender com bons e maus conselhos
Por Celso Tacla, vice-presidente executivo da Valmet América Latina e membro do comitê executivo global da Valmet
Tenho dedicado tempo ao autoconhecimento e à revisão da própria trajetória: movimentos essenciais para qualquer líder que deseja evitar o piloto automático e manter coerência entre propósito, valores e motivação.
Essas reflexões também têm sido inspiradas pelo podcast ‘Conversas com Propósito’, do meu amigo André Caldeira. Em diálogos profundos com líderes e conselheiros, ele costuma perguntar: “Qual foi o melhor conselho que você recebeu? E o pior?”
Passei a organizar mentalmente minha própria lista. Antes de chegar ao conselho que não consegui classificar totalmente, compartilho dois que classifiquei como bons.
- O conselho que mudou a forma como eu chegava na empresa
Um colega de trabalho, advogado, um dia me disse algo que me marcou profundamente: “Você é uma pessoa aberta, bem-humorada, acessível. Mas não é isso que as pessoas percebem quando você chega na empresa. Você entra com a expressão fechada, passa rápido por todos. Para muitos, aquele é o único momento de contato com você. A impressão que fica não combina com quem você realmente é.”
Pensei e conclui que ele estava certo! Sem querer perder um minuto de meu tempo, já chegava imerso mentalmente nos desafios do dia: reuniões, decisões, problemas a resolver. Sem perceber, transmitia a imagem de alguém distante e preocupado. Não era intencional, mas era real. A partir dali, mudei conscientemente a forma de como caminhava pelos corredores pela manhã.
Passei a chegar com consciência, presença e abertura: cumprimentando, olhando nos olhos, estando disponível. Não por obrigação, mas por coerência com quem eu era, com o tipo de líder que desejava ser.
Foi um dos melhores conselhos que recebi, porque me ensinou que liderança também se comunica nos mínimos gestos, e que para muitos, um segundo de contato basta para formar uma impressão duradoura.
- O conselho de um CEO global sobre desenvolver equipes
Outro conselho que coloco claramente no lado dos bons veio de um ex-chefe, CEO global, que me disse certa vez: “Como líder, você deve buscar terminar cada ano com uma equipe melhor do que aquela com que começou.”
Isso não significava, necessariamente, trocar as pessoas (embora às vezes envolvesse decisões difíceis). Significava, sobretudo, que parte essencial da minha responsabilidade era suportar, desenvolver e capacitar as pessoas, permitindo que crescessem e se tornassem líderes ainda melhores.
Esse conselho moldou profundamente a forma como passei a enxergar a liderança: não como alguém que apenas entrega resultados, mas alguém que multiplica capacidades.
- O conselho que nunca soube classificar
E então há o terceiro, mais uma orientação que conselho, que recebi no início da carreira, quando trabalhava em uma empresa familiar no meu primeiro emprego. Depois de alguns anos, fui promovido a gerente de um setor da fábrica. Ainda muito jovem, deveria liderar uma grande equipe de produção e pessoas com muita experiência prática. Naquele tempo, as comunicações internas eram feitas por memorandos afixados em murais.
Perguntei ao meu chefe se ele publicaria a promoção. Ele respondeu: “Se tiver que escrever no mural que você é o gerente, você não o é.”
Aquilo me soou absurdo. Com o tempo, revelou-se um misto de acerto e falha, por isso nunca consegui classificá-lo totalmente.
Ele continha um lado bom, uma verdade essencial: liderança não nasce do cargo, nasce da influência. Olhando em retrospecto, percebo que aquilo revelava algo que meu chefe já enxergava em mim antes mesmo de eu perceber: minha capacidade de me conectar com as pessoas, criar proximidade e gerar confiança. Essa habilidade se tornou um dos pilares da minha liderança e, ao longo da carreira, foi uma das forças que mais me ajudaram.
Por outro lado, trazia também um lado problemático: transparência, alinhamento e clareza de papéis são fundamentais para a governança moderna. Uma comunicação falha abre espaço para ruídos, insegurança, dúvidas sobre legitimidade e interpretações equivocadas.
Por isso, esse conselho sempre carregou luz e sombra.
O QUE TODOS ESSES CONSELHOS ME ENSINARAM?
Cada um destes conselhos, o claramente bom, o transformador e o ambíguo, me ajudou a entender que:
- Liderança é construída no cotidiano, não pela autoridade do organograma;
- Pequenos gestos impactam tanto quanto palavras e decisões;
- Desenvolver pessoas é uma missão, não uma opção;
- Transparência e comunicação são partes essenciais da influência;
- Autoconhecimento é um exercício contínuo, não um projeto pontual.
Liderança não é apenas sobre autoridade: é sobre influência, propósito, presença e responsabilidade.











