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Prepare-se para 2026: desvendando as tempestades turbulentas políticas e econômicas que abalam a América Latina

Por Rafael Barisauskas, Senior Economist, Latin America Pulp, Paper & Packaging Analytics

A economia na América Latina enfrenta desafios à medida que 2025 chega ao fim, com mais turbulência ainda esperada para o quarto trimestre. Choques externos, combinados com mudanças políticas internas, estão criando um dos cenários mais desafiadores que a região enfrentou nos últimos anos. Mas o que isso significa para os mercados de commodities e os usuários finais?

REVERBERAÇÕES DAS TARIFAS DOS EUA

A trégua temporária na guerra comercial entre os EUA e a China aliviou algumas tensões, com o Brasil participando ativamente de negociações para redução de tarifas e buscando uma diversificação comercial mais ampla na região da Ásia-Pacífico. Brasil e Chile têm se posicionado como alternativas estratégicas à China no mercado de terras raras, com o Brasil produzindo seus primeiros óxidos de terras raras de origem doméstica e o Chile expandindo seus projetos de terras raras pesadas para apoiar indústrias de energia limpa e tecnologia. No entanto, as tarifas continuam elevadas sobre minerais brutos e muitos produtos agrícolas, o que tem impactado a dinâmica comercial global.

Produtores de commodities e de celulose no Brasil estão demonstrando resiliência diante das tarifas de 50% dos EUA, redirecionando suas exportações de papel para mercados asiáticos e sul-americanos, enquanto a celulose foi excluída da sobre tarifa após um pequeno susto no terceiro trimestre. Entretanto, produtores brasileiros estão tendo que se contentar com preços mais baixos e margens mais comprimidas nos mercados globais. Já no México, produtores, sobretudo de papel-cartão, podem ter um alívio temporário diante das novas tarifas antidumping impostas em outubro sobre produtos chineses, embora a fraquíssima demanda doméstica esteja limitando o mercado, hoje.

DESAFIOS POLÍTICOS E ECONÔMICOS

O consumo de papel na América Latina mostra, no geral, uma moderação, influenciada pela incerteza política e pelos altos custos de crédito, apesar da queda da inflação em países como o Chile e o Peru. Nos principais mercados, em termos de volume, como Brasil, México e Colômbia, o crescimento da demanda das famílias está abaixo do potencial, diante do aumento acumulado dos custos de vida (sobretudo alimentação e energia elétrica) e à estagnação dos salários reais, o que tem levado a um comportamento mais cauteloso por parte dos consumidores e pressionando as margens das empresas.

As respostas dos diversos bancos centrais regionais variam conforme a inflação e o crescimento em cada país, criando condições monetárias distintas. Brasil e Colômbia mantêm posturas restritivas, priorizando a inflação em detrimento do crescimento. México, Chile, Peru e Uruguai estão reduzindo gradualmente as taxas de juros, embora em ritmos distintos. Já a Argentina mantém as taxas elevadas para ancorar as expectativas, apesar do recente apoio financeiro dos EUA. Essas diferenças refletem trajetórias distintas de inflação, gaps de produto e fatores políticos, com bancos mais hawkish sacrificando o crescimento de curto prazo para reconstruir credibilidade após problemas inflacionários.

As diferentes taxas de juros estabelecidas pelos bancos centrais da região criam um mosaico: produtores no Brasil e na Colômbia enfrentam custos de financiamento elevados, dificultando investimentos, enquanto aqueles no Chile, Peru e Uruguai têm experimentado algum alívio, apesar da demanda interna estar fraca e o mercado de exportação, mais competitivo.

DE OLHO EM 2026

A América Latina começará 2026 com alta incerteza nos setores político e econômico, após um ano marcado pela imprevisibilidade. A instabilidade política é o principal risco, decorrente da fragilidade do Peru, da transição na Bolívia, da eleição polarizada no Chile e dos esforços de austeridade na Argentina. Essas questões levam a prêmios de risco mais elevados, atrasos nos investimentos e à redução da flexibilidade das políticas, afetando, em última análise, o crescimento, mesmo quando os fundamentos são sólidos. Somente quando a estabilidade retornar será possível retomar o crescimento plenamente.

Por fim, os usuários finais, na ponta da cadeia, enfrentam o pior dos dois mundos: poder de compra reduzido devido à dívida recorde das famílias, remessas internacionais em queda no México e inflação persistente na Colômbia e no Chile. As vendas no varejo devem permanecer fracas até que a estabilidade política e o afrouxamento monetário geral na região melhorem, o que beneficiará empresas com balanços sólidos, operações adaptáveis e a capacidade de comprimir temporariamente as margens nos próximos trimestres. Os preços do papel podem estar estagnados por ora, mas os custos de capital e a luta por market share na ponta final estão aumentando a pressão sobre as equipes de compras e procurement, sobretudo de grandes multinacionais que estão migrando do papel para o plástico temporariamente ou aumentando estratégias de shrinkflation, quando não fazendo ambos ao mesmo tempo.

Para o mercado de corrugados, projetamos que o consumo aparente na América Latina cresça 2,3% em 2026, enquanto para o mercado de papel-cartão, esperamos recuo de estagnação a +0,2%, segundo a última projeção divulgada em nosso relatório Latin America Pulp and Paper 5-Year Forecast.

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Rafael Barisauskas

Rafael Barišauskas é economista na Fastmarkets e possui mais de 10 anos de experiência em projeções econômicas e análise de mercados de commodities da América Latina, como papel e celulose. O executivo atua com análises econômicas, ajudando stakeholders do setor a tomar melhores decisões. Em paralelo, leciona no Centro Universitário de Análise Econômica da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP), na área de Análise da Cadeia de Valor do Agronegócio.
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