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Setor de celulose enfrenta transformação global e aposta em tecnologia, pessoas e eficiência para sustentar crescimento

Executivos de Eldorado Brasil Celulose, Klabin e Suzano destacam desafios operacionais, avanço da indústria 5.0 e necessidade de inovação contínua durante o Pulp Summit Latinoamérica

A indústria global de celulose atravessa um momento de transformação estrutural, marcado por mudanças no comércio internacional, avanço tecnológico e novas exigências de sustentabilidade. Esse cenário foi tema central do painel de executivos realizado durante a primeira edição do Pulp Summit Latinoamérica, em 25 de março, que reuniu lideranças do setor para discutir os rumos da atividade nos próximos anos.

Participaram do debate Marcelo Martins, da Eldorado Brasil Celulose, Francisco Razzolini, da Klabin, e Maurício Miranda, da Suzano, com mediação de Ari Medeiros. Em entrevistas após o painel, os executivos aprofundaram suas análises sobre o contexto atual e os desafios estratégicos da indústria.

MERCADO GLOBAL EM TRANSIÇÃO E NOVAS FRONTEIRAS DE CRESCIMENTO

Na avaliação de Francisco Razzolini, o setor vive um período de redefinição em escala global, com mudanças no equilíbrio entre oferta e demanda e o surgimento de novas barreiras comerciais.

“O mercado de celulose, assim como o mercado global, está passando por um período de transformação ou até mesmo de redefinição de alguns papéis. Diversos países vêm enfrentando novas barreiras, ao mesmo tempo em que observamos um crescimento de capacidade em mercados como a China, que é um grande importador de celulose. Ainda assim, para os níveis atuais de capacidade do Brasil, o país continua tendo facilidade para escoar esses produtos”, disse.

Apesar das incertezas, o executivo aponta que o crescimento da demanda global segue como vetor central para o setor, especialmente em regiões com consumo ainda em expansão.

“O que vem pela frente é a capacidade do mundo de continuar crescendo e absorvendo novos volumes, incluindo cada vez mais pessoas. Provavelmente também veremos outros mercados despontando, como a região da Índia, a África e até mesmo algumas regiões aqui, onde o consumo per capita ainda é muito baixo”, acrescentou Razzolini.

CRESCIMENTO SUSTENTADO PELA DEMANDA E PELA LOGÍSTICA DO CONSUMO

Marcelo Martins compartilhou a visão de um mercado estruturalmente em expansão, impulsionado por mudanças nos hábitos de consumo e pela crescente demanda por embalagens: “O mercado de celulose está sempre crescendo. Ele segue em expansão porque há demanda contínua pelo produto. Ao contrário do que muita gente imaginava, com a computação e a inteligência artificial as pessoas deixariam de usar papel, mas isso não aconteceu. Pelo contrário, o uso é ainda maior”.

Ele citou também o avanço do comércio eletrônico como exemplo direto dessa dinâmica. “Tudo que você compra pela internet chega como? Embalado em papel”, acrescentou.

A fala evidencia como a celulose permanece essencial em cadeias produtivas modernas, contrariando previsões de substituição total por meios digitais.

DESAFIOS OPERACIONAIS E PRESSÃO POR EFICIÊNCIA

Se por um lado a demanda cresce, por outro as empresas enfrentam desafios relevantes dentro das operações industriais, especialmente após a pandemia.

Razzolini destacou o aumento expressivo dos custos de investimento como um dos principais entraves atuais: “Os maiores desafios hoje são melhorar a produtividade geral e reduzir os custos de investimento, que cresceram muito no pós-pandemia. Isso tornou os investimentos em novos ativos e na reposição de ativos significativamente mais caros do que eram há cinco ou seis anos”.

Nesse contexto, a busca por eficiência passa necessariamente pela adoção de novas tecnologias. “Esse é um grande desafio neste momento de reorganização do setor no mundo, especialmente no que diz respeito aos fornecedores. Ao mesmo tempo, é fundamental avançar cada vez mais em automações, sistemas avançados de controle e até no uso de inteligências artificiais para melhorar a produtividade e a confiabilidade dos sistemas”, adicionou.

INDÚSTRIA 5.0: INTEGRAÇÃO TECNOLÓGICA E PROTAGONISMO HUMANO

O avanço da chamada indústria 5.0 também foi apontado como um divisor de águas para o setor. Para Razzolini, o desafio agora é integrar sistemas e ampliar a autonomia operacional das plantas industriais: “Evoluímos muito nas operações de cada equipamento individualmente, especialmente em confiabilidade. Agora, o grande desafio é a integração da planta operacional como um todo e o aprimoramento dos sistemas de informação direta, para que as plantas possam se autocontrolar e se balancear com mais agilidade do que ocorre hoje”.

Já Marcelo Martins enfatizou que a principal mudança em relação à indústria 4.0 está na valorização das pessoas dentro desse novo modelo: “A diferença da indústria 4.0 para a 5.0 está justamente nas pessoas. A 5.0 passa a incluí-las de forma central e, se a empresa não considerar isso, em pouco tempo ficará para trás”.

Ele também ressaltou que a adoção de tecnologias como inteligência artificial exige capacitação, e não substituição da força de trabalho.

“Nós implementamos inteligência artificial e, em um primeiro momento, as pessoas achavam que isso reduziria o número de profissionais. Não. Pelo contrário, é preciso capacitar melhor as pessoas que já estão lá, para que entendam mais de automação e de inteligência artificial. E isso até aumentou a demanda por profissionais, com a necessidade de trazer pessoas especializadas nessas áreas”, complementou.

SUSTENTABILIDADE COMO FATOR DE COMPETITIVIDADE

Para Maurício Miranda, a sustentabilidade deixou de ser apenas uma diretriz ambiental e passou a ocupar papel central na estratégia de negócios das empresas do setor: “Quando falamos em sustentabilidade, o ESG hoje é um requisito fundamental e também de competitividade. Quando pensamos na redução do consumo de água e nos cuidados ambientais, com o melhor uso dos recursos naturais, tudo isso, de forma até direta, acaba trazendo mais competitividade”.

Ele também destaca que a busca por eficiência energética e redução de insumos está diretamente ligada à inovação tecnológica. “Está sempre aberto a tecnologias e inovações que busquem maior disponibilidade, menor consumo, seja de químicos ou maior eficiência energética”, adicionou.

FORMAÇÃO DE TALENTOS E RENOVAÇÃO GERACIONAL

Outro ponto central levantado pelos executivos é a necessidade de atrair, desenvolver e reter profissionais qualificados em um setor altamente técnico.

“Acho que o segmento tem o desafio de manter uma mão de obra qualificada e realmente engajada, comprometida com o resultado, com o desenvolvimento profissional e também com realizações pessoais”, afirmou Miranda.

O executivo também ressaltou o papel dos programas de formação na renovação da indústria: “Eu gosto muito de falar com estagiários e trainees. Você está em um ambiente muito rico, com muita experiência disponível e muitas oportunidades, e basta realmente se dedicar”.

Além disso, ele apontou a complementaridade entre diferentes gerações como um diferencial competitivo. “Essa mistura é muito positiva. Quando você soma o outro lado e faz esse balanço, chega-se a uma combinação bastante rica”, finalizou.

ENTRE INOVAÇÃO E PESSOAS, O FUTURO DO SETOR

As entrevistas revelam que o futuro da indústria de celulose passa por um equilíbrio entre expansão da demanda global, ganhos de eficiência operacional e transformação tecnológica, sem perder de vista o papel central das pessoas.

Em um ambiente cada vez mais competitivo e integrado globalmente, a capacidade de inovar, reduzir custos e formar talentos aparece como decisiva para sustentar o crescimento do setor nos próximos anos.

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