Setor de papel e celulose enfrenta trimestre mais desafiador, apesar de sinais de recuperação nos preços
Paradas para manutenção, valorização do real e sazonalidade pressionam desempenho no início de 2026
O primeiro trimestre de 2026 deve apresentar desempenho mais moderado para as empresas de papel e celulose de capital aberto. Apesar da recuperação gradual nos preços da celulose, analistas apontam que a combinação de paradas programadas para manutenção, valorização do real frente ao dólar e sazonalidade desfavorável deve impactar os resultados do setor.
A cotação da celulose de fibra curta (BHKP) na China, principal mercado global, encerrou março em torno de US$ 600 por tonelada, alta de 2% na comparação anual, e chegou a US$ 605 no início de abril, segundo relatório do Itaú BBA. O banco destaca que produtores latino-americanos tentam implementar aumentos adicionais entre US$ 10 e US$ 20 por tonelada ainda em abril, com possibilidade de novos reajustes em maio, impulsionados pelo encarecimento de energia e logística em meio à escalada do conflito no Oriente Médio.
Mesmo com essa recuperação, três fatores principais devem levar a resultados mais fracos no trimestre. O primeiro é a concentração de paradas para manutenção. A Suzano está entre as mais impactadas, com paralisações simultâneas em quatro unidades, Aracruz (ES), Imperatriz (MA), Ribas do Rio Pardo (MS) e Veracel (BA), além do corte voluntário de produção de 3,5% anunciado em agosto de 2025.
A Klabin também realizará parada na unidade de Monte Alegre (PR). Já a chilena CMPC interrompe operações nas unidades Guaíba I e II, o que deve reduzir os volumes de vendas em 8% na comparação trimestral e elevar os custos em 4%, segundo estimativas do Santander.
O segundo fator de pressão é a valorização do real frente ao dólar, que reduz a receita das exportadoras ao converter os valores para a moeda local. De acordo com a XP Investimentos, a moeda americana recuou cerca de 5% no período.
Por fim, a sazonalidade típica do início do ano contribui para a queda de demanda por papel e embalagens após o pico de consumo no fim do ano anterior, reduzindo volumes e elevando custos unitários de produção. A combinação desses fatores leva as principais casas de análise a projetarem queda sequencial de Ebitda para praticamente todas as companhias do setor.
No caso da Suzano, o Santander estima queda de 11% nos volumes em relação ao quarto trimestre de 2025, totalizando 3.024 mil toneladas. O Ebitda do segmento de celulose deve atingir R$ 3,9 bilhões (-19%), enquanto o consolidado é projetado em R$ 4,5 bilhões (-20%). O BofA projeta retração de 14% nos volumes, com Ebitda de R$ 4,952 bilhões. Já a XP estima redução de 350 mil toneladas e Ebitda de R$ 5 bilhões, com margem de 47,8%.
Para a Klabin, o impacto tende a ser mais moderado devido à diversificação do portfólio. Ainda assim, o Santander projeta Ebitda de R$ 1,637 bilhão (-11%), com margem de 33%. O BofA e a XP estimam cerca de R$ 1,7 bilhão, com leve queda em papel e embalagens.
No caso da CMPC, o Santander projeta Ebitda de US$ 263 milhões, praticamente estável, enquanto o BofA estima US$ 223 milhões (-14,7%), pressionado por menores volumes e custos mais elevados.
A Irani também deve apresentar recuo, com Ebitda estimado em R$ 117 milhões (-9%), segundo a XP, refletindo volumes menores e custos mais altos associados às paradas de manutenção.
Além dos fatores conjunturais, o Itaú BBA alerta para riscos estruturais no setor. Entre eles, a possível retomada do manejo florestal na Indonésia, que pode reduzir o custo de produção de celulose na Ásia, e o avanço da integração vertical das empresas chinesas, que seguem ampliando sua capacidade própria de produção.
O banco também destaca novas adições de capacidade previstas para o fim do terceiro trimestre e ao longo do quarto trimestre, o que pode pressionar a demanda global no momento em que produtores ocidentais retomam suas operações após as paradas.
Outro ponto de atenção é o projeto OKI II, da Asia Pulp and Paper (APP), com início de operação esperado entre o fim de 2026 e o início de 2027. Segundo o Itaú BBA, a soma desses fatores deve manter os preços da BHKP pressionados no longo prazo, com projeção em torno de US$ 570 por tonelada em termos reais.













