Suzano tem recomendação revisada pelo Bank of America em meio a mudanças no mercado global de celulose
Banco reduz preço-alvo e ajusta projeções diante de expectativa de maior oferta global e pressão nos preços da commodity
O Bank of America (BofA) rebaixou a recomendação para as ações da Suzano de “compra” para “neutro” e reduziu o preço-alvo de R$ 82 para R$ 57. A decisão reflete a avaliação de que o mercado global de celulose entrou em um novo ciclo estrutural de preços mais baixos, o que deve impactar o EBITDA e o lucro da companhia controlada pela família Feffer.
A reação do mercado foi imediata: os papéis da empresa caíram mais de 6% após a divulgação do relatório, em meio a um leilão de 22 milhões de ações coordenado pelo BTG. Com isso, o valor de mercado da Suzano recuou para R$ 58,6 bilhões. O volume negociado também disparou, alcançando R$ 4 bilhões, bem acima da média de R$ 268 milhões registrada nos últimos 30 dias.
O movimento do BofA marca o primeiro downgrade entre as principais instituições que acompanham a companhia. Atualmente, a Suzano conta com cobertura de outros 15 bancos e corretoras, todos ainda com recomendação de “compra”.
EXCESSO DE OFERTA PRESSIONA PREÇOS
Na avaliação do banco, o aumento da oferta global, impulsionado pela expansão de capacidade na América Latina e pela crescente autossuficiência da China, deve manter os preços pressionados por mais tempo, reduzindo o potencial de valorização das ações.
O analista Caio Ribeiro afirmou que o rebaixamento reflete a alta exposição da Suzano “à volatilidade dos preços da celulose em um momento em que nos tornamos estruturalmente mais cautelosos em relação às perspectivas da commodity no curto e no longo prazo.”
Segundo ele, “o atual ciclo de alta da celulose está se aproximando do fim, sustentado por uma combinação de estoques acima da média nos portos chineses, baixa rentabilidade das fabricantes de papel, preços no mercado secundário e nos futuros sendo negociados abaixo dos benchmarks, a retomada de capacidade da Chenming [uma gigante chinesa de papel e celulose] e sinais iniciais de que as restrições florestais da Indonésia podem ser parcialmente revertidas ou flexibilizadas”.
Para o analista, esse conjunto de fatores indica uma dinâmica de preços mais fraca no curto prazo, com impacto direto sobre os resultados da companhia.
Apesar do cenário mais desafiador, o relatório destaca que “ainda assim, a empresa continua num valuation saudável, negociando a cerca de 6,4x EV/EBITDA, além de oferecer um free cash flow yield para o acionista de aproximadamente 5,4% em 2026,” escreveu o analista.
O banco também revisou para baixo suas projeções financeiras. A estimativa de lucro líquido passou para R$ 5,9 bilhões neste ano e R$ 5,8 bilhões em 2027, ante projeções anteriores de R$ 6,9 bilhões e R$ 6,8 bilhões. Já o EBITDA foi ajustado para R$ 21,3 bilhões neste ano e R$ 23,8 bilhões no próximo, abaixo das estimativas anteriores de R$ 22 bilhões e R$ 25,1 bilhões.
Além disso, o BofA reduziu sua projeção de longo prazo para o preço da celulose, de US$ 600 para US$ 550 por tonelada, com possibilidade de níveis ainda menores em cenários de estresse.
CHINA MUDA DINÂMICA GLOBAL DO SETOR
O relatório destaca ainda mudanças estruturais no mercado global, especialmente o avanço da produção doméstica chinesa. “A produção chinesa de celulose de madeira aumentou significativamente, saindo de cerca de 12,6 milhões de toneladas por ano há cinco anos para aproximadamente 26 milhões de toneladas atualmente, impulsionada principalmente pela maior disponibilidade de madeira no país,” escreveu o BofA.
Com isso, “a China deixou de ser um mercado quase exclusivamente baseado na demanda para se tornar um player relevante do lado da oferta, com implicações importantes para a formação de preços.”
A tendência deve continuar, com um pipeline de projetos que pode adicionar cerca de 6 milhões de toneladas de capacidade no país.
EXPANSÃO NA AMÉRICA LATINA AMPLIA RISCO DE DESEQUILÍBRIO
Paralelamente, novos projetos na América Latina devem ampliar ainda mais a capacidade global. “O Brasil permanece no centro dessa onda de expansão. Projetos de grande escala representam quase 13 milhões de toneladas adicionais de capacidade de fibra curta que devem entrar no mercado nos próximos anos,” diz o analista. “Esses projetos devem começar a operar em um contexto de crescimento de demanda mais fraco, aumentando o risco de excesso de oferta persistente — e não apenas um aperto cíclico temporário”.
Entre os projetos citados estão o Sucuriú, da Arauco, previsto para o quarto trimestre de 2027; o projeto Natureza, da CMPC, com início estimado para 2029; uma nova planta da Bracell em Bataguassu, com capacidade de 2,8 milhões de toneladas; e uma possível expansão da Eldorado.













