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Você está no auge – e isso pode ser o problema

Por Celso Tacla, vice-presidente executivo da Valmet América Latina

O livro from Strength to Strength, de Arthur C. Brooks, traz uma reflexão muito interessante sobre como encontrar sucesso, felicidade e propósito na segunda metade das nossas vidas. Interessei-me por essa leitura depois de ouvir podcast com Cristina Palmaka, que, entre outras posições, foi CEO da SAP para o Brasil e depois para a América Latina. Ela contou sobre sua carreira como executiva e sobre a longa preparação e a jornada que começou a desenvolver, já há alguns anos, como conselheira de empresas. 

Resolvi escrever este artigo porque acredito que essa preparação e essa transição sejam resoluções importantes, que demandam reflexão e planejamento de pessoas como eu e muito provavelmente você. No livro, Arthur Brooks apresenta casos muito ricos de pessoas que conseguiram fazer essa mudança com sucesso, como os compositores Bach e Beethoven, e de outras que não conseguiram realizá-la, como DeLorean (aquele do automóvel eternizado no filme De Volta para o Futuro).

Para mim, que já estava interessado nesse tema, o clique aconteceu durante uma visita recente à Igreja de Fraumünster, em Zurique. Lá, vi os belíssimos vitrais pintados por Marc Chagall quando ele já passava dos 80 anos – verdadeiras obras-primas. Essas obras fazem parte de sua fase monumental e espiritual, entre 1950 e 1970. Para Chagall, não houve ruptura, mas uma expansão: da pintura para a luz, para uma espiritualidade mais profunda e para uma síntese simbólica mais madura. 

Voltando agora às nossas carreiras como líderes de organizações e às suas diferentes fases…elas estão fortemente conectadas a dois tipos de inteligência que desenvolvemos ao longo da vida. A primeira é a inteligência fluida, ligada à capacidade de raciocínio, à flexibilidade de pensamento e à rapidez para aprender e resolver problemas. É ela que normalmente impulsiona nossas carreiras na juventude e na fase adulta inicial, ajudando-nos a crescer, competir e alcançar posições de destaque. 

Já a inteligência cristalizada, que se desenvolve mais fortemente em uma segunda fase, está associada ao uso do estoque de conhecimento, experiências e aprendizados acumulados ao longo do tempo. Ela se manifesta na capacidade de síntese, de julgamento, de aconselhamento e de compreensão mais profunda das situações. 

Simplificando, é como se, quando somos jovens, tivéssemos uma inteligência mais bruta (raw smart), capaz de gerar muitos fatos e ideias. Com a maturidade, surge a sabedoria: a habilidade de entender o significado desses fatos e de usá-los da melhor forma possível. Esses conceitos sobre os tipos de inteligência foram descritos por Raymond Cattell no livro Abilities: Their Structure, Growth and Action, publicado em 1971. O grande mérito de Arthur Brooks foi conectar esse estudo às curvas de ascensão e declínio desses tipos de inteligência ao longo da vida, relacionando-as à necessidade de transição entre diferentes fases de carreira — com um objetivo claro: buscar felicidade e propósito, e não apenas sucesso. Muito sagaz, não é? 

Pode parecer fácil, mas a dificuldade está em vencer as forças contrárias, que seguram ou impedem a transição. Isso envolve, primeiro, enxergar o momento de iniciar a preparação geralmente quando o sucesso ainda é alto e, depois, reconhecer quando insistir em uma curva começa a custar mais do que o próprio salto. Afinal, para pessoas bem-sucedidas, qualquer que seja seu campo de atuação, como aceitar o declínio de uma curva e saltar para outra? Como vencer o vício pelo trabalho e pelo sucesso, deixar de lado as recompensas materiais e o medo da irrelevância? 

A preparação começa quando o sucesso ainda é alto.
O salto deve acontecer quando insistir passa a custar mais do que mudar. 

O autor sugere três caminhos para tornar essa segunda curva não apenas possível, mas mais significativa do que a primeira: desenvolver relações e conexões, iniciar uma jornada espiritual e abraçar as próprias fragilidades. Para evitar dúvidas, “relacionamentos”, aqui, não se refere à quantidade nem aos vínculos quase sempre efêmeros das redes sociais, mas a relações íntimas e duradouras — como os laços familiares próximos, as amizades profundas e verdadeiras e as relações de mentoria e serviço, nas quais se transfere conhecimento e se ajuda o outro a crescer. 

Nada disso é simples. Não é fácil abandonar o vício pelo sucesso, afinal, foi você quem o construiu, com tanto esforço e dedicação. Da mesma forma não é fácil renunciar às recompensas associadas a dinheiro, poder, prazer, honra e prestígio profissional e social. O problema é que essa roda não para. Quando baseamos nosso senso de valor no sucesso, precisamos ir de vitória em vitória, porque a satisfação logo passa e somos empurrados a buscar a próxima conquista. 

É como aqueles ratinhos correndo dentro de uma roda que gira sem os levar a lugar nenhum. A satisfação passa a ser conquistar continuamente o que se deseja. Não há nada de errado nisso; é natural e faz parte da evolução humana. Nossos ancestrais buscavam mais recursos para sobreviver aos invernos e, depois, para se destacar em relação aos vizinhos. O desafio surge quando esse jogo de comparação se torna infinito, e sucesso passa a significar sempre ter mais do que os outros, enquanto o fracasso passa a ser ter menos. 

A reflexão avança, então, para as recomendações sobre como se tornar um sábio contemporâneo (ou modern elder), alguém que transforma experiência em impacto. Entre elas estão evoluir de um mindset fixo para um mindset de crescimento (vale a leitura de Mindset: A Nova Psicologia do Sucesso, de Carol Dweck), manter-se aberto a aprender coisas novas, colaborar ativamente com os times e aconselhar outras pessoas. 

Para mergulhar de fato nessa nova fase, quatro perguntas — e suas respostas — são essenciais: 

  • quais atividades você quer manter? 
  • quais deseja evoluir ou fazer de forma diferente? 
  • quais pretende deixar de lado? 
  • e quais novas atividades quer aprender? 

Por fim, para ir de uma fortaleza a outra, from Strength to Strength, temos que aprender um novo conjunto de habilidades. Conversei recentemente com o amigo Marcos Leandro Pereira, conselheiro de empresas, que trouxe uma metáfora poderosa: a transição de carreira não é necessariamente uma ruptura, mas um ajuste que acontece com o tempo como um óculos fotocromático, que escurece lentamente, sem alarde, até que a nova realidade se torne natural aos olhos. 

O próprio Arthur Brooks resume o livro em sete palavras. Recomendo fortemente a leitura, mas deixo aqui esse fechamento simples e profundo: 

Use things.
Love people.
Worship the divine.

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